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Ceratocone

O que é ceratocone?

O ceratocone é uma alteração no formato da córnea, em que ela sofre um encurvamento progressivo. Esse encurvamento, caso seja muito acentuado, deixa a córnea com formato de um cone, por isso o nome “ceratocone”.

A córnea é a mais importante lente do nosso olho e se localiza na parte da frente do globo ocular, à frente da íris, aquela estrutura que dá cor aos nossos olhos. Ela é uma lente transparente, o que permite que vejamos através dela.

A córnea é estrutura com mais terminações nervosas no nosso corpo e por isso qualquer machucado, lesão, inflamação ou infecção que acometa a córnea pode causar dor intensa no olho. O ceratocone é uma doença não-inflamatória, portanto, o paciente com essa alteração normalmente não sente dor. Ele só vai sentir dor, e nesses casos em geral é intensa, se apresentar um quadro chamado hidropsia, que ocorre quando a córnea sofre uma ruptura porque se encurvou excessivamente. Esses casos, inclusive, tem que ser tratados com urgência!

Quais os sintomas do ceratocone?

Nos casos leves de ceratocone, o paciente pode ter uma visão normal ou quase normal, podendo até mesmo nem precisar de óculos e, por isso, algumas vezes a doença passa despercebida. Nos quadros moderados e severos, o paciente apresenta geralmente a visão embaçada, mesmo usando os óculos corretos. É muito comum o paciente com ceratocone apresentar miopia e/ou astigmatismo, mas nesse caso, a miopia e o astigmatismo tem origem no próprio ceratocone, resultante desse encurvamento anormal da córnea, diferente daquela miopia e astigmatismo comuns, que a maioria das pessoas apresenta.

Quais são as causas do ceratocone?

O ceratocone é uma doença ocular com múltiplas causas. Ainda não é totalmente sabido tudo a respeito de suas causas, mas as principais são: predisposição genética do paciente, que pode ser dele mesmo (esporádica) ou herdada da família (familiar), associada com o ato de coçar ou esfregar os olhos, sintoma muito comum em pacientes com alergia ocular.

Como saber se tenho ceratocone?

Somente em uma consulta oftalmológica é possível fazer o diagnóstico da doença.

Na consulta, que tem que ser bem completa e detalhada, o oftalmologista, através do microscopio, analisa a córnea e o seu formato, mede a acuidade visual e o grau do paciente, faz a ceratometria da córnea, e complementa esse exame clínico com exames de imagem que podem ser a topografia de córnea + paquimetria ou tomografia de córnea (Pentacam ou Orbscan).

A tomografia da córnea é o exame mais completo que existe, ou seja, é o que traz mais informações da córnea, mas não é coberto pelos planos de saúde.

O ceratocone pode ser diagnosticado juntando-se todos os dados citados acima. E essa conclusão é dada pelo médico especialista em córnea.

Fui diagnosticado com ceratocone… e agora? Vou perder a visão?

Os pacientes que tem um diagnóstico precoce da doença tem uma chance muito alta de não ter perda visual, desde que façam o acompanhamento médico e tratamento corretos. Hoje dispomos de vários tratamentos, inclusive de um tratamento para parar a doença, ou seja, não deixá-la progredir, que se chama cross-linking, do que falaremos mais adiante. Se o paciente não for ao oftalmologista e o diagnóstico e o tratamento adequados não forem feitos, realmente ele tem uma chance de perder a visão por causa da doença e até mesmo precisar de um transplante de córnea.

Em qual idade aparece o ceratocone?

O mais comum é a doença surgir no adolescente ou no adulto jovem, ou seja, entre 12 e 25 anos. Mas existem casos em que ela surge antes ou depois dessa faixa de idade, ou seja, em crianças ou em adultos.

Quais são os tratamentos para o ceratocone?

Existem diversos tratamentos para o ceratocone que são divididos em tratamento para impedir a progressão da doença e tratamentos para reabilitar a visão. Para impedir a progressão da doença temos apenas um tratamento com eficácia cientificamente comprovada: o cross-linking. Para reabilitação da vidão, ou seja, para devolver visão ao paciente, o tratamento pode ser desde a prescrição de óculos, até a adaptação de lentes de contato ou mesmo implante de anel intra-estromal.

O que é a cirurgia de cross-linking?

Essa é uma cirurgia considerada de muito baixo risco, já consagradaa há mais de 30 anos, a única com evidência científica de que reduz radicalmente a chance de progressão do ceratocone. É uma cirurgia já aprovada pelos principais orgãos reguladores de todo o mundo, inclusive pelo FDA (Estados Unidos) e pela ANVISA (Brasil).

Ela é realizada com anestesia tópica, ou seja, com colírio anestésico em centro cirúrgico. Esse procedimento é feito aplicando-se uma radiação ultravioleta (UV) de forma controlada na superfície do olho, com o objetivo de tornar a córnea mais firme e mais resistente, ou seja, menos elástica e, portanto, menos propensa a se encurvar, como acontece quando ceratocone progride. Nele, primeiramente, é feito o preparo da córnea, removendo-se a sua camada mais externa, chamada de epitélio, e em seguida aplica-se vitamina B2, também chamada de riboflavina, num intervalo programado de minutos por um tempo determinado. A riboflavina, ao mesmo tempo que protege as camadas mais internas da córnea e também as estruturas internas do olho do efeito indesejado da luz ultravioleta, promove o efeito que queremos dessa radiação nas camadas mais externas da córnea, tornando-as mais rígidas. Após esse preparo, o olho é exposto de 10 a 30 minutos à essa radiação UV controlada, a depender do protocolo do cross-linking usado, podendo ser o tradicional ou o fast-cross-linking. Ao fim da cirurgia, uma lente de contato gelatinosa sem grau é colocada no olho e deixada por cerca de 5 a 7 dias até que essa camada da córnea que foi inicialmente removida se regenere completamente. A cirurgia é indolor e no pós-operatório é comum sentir desconforto nos olhos, lacrimejamento e vermelhidão, principalmente nos primeiros dias. Sensação de piora da visão também é comum e pode durar alguns meses. O objetivo dessa cirurgia é que ela preserve a córnea no formato em que ela se encontra naquele momento, ou seja, não é esperado que a cirurgia modifique a córnea, nem a aplanando nem a encurvando muito. Pequenas alterações no formato da córnea podem acontecer, podendo provocar leve aumento ou leve redução do grau, mas grandes modificações não são esperadas após o cross-linking. É comum o paciente se queixar que não “sentiu efeito da cirurgia”, mas é justamente esse o objetivo: “preservar a córnea do jeito que ela está naquele momento”, como se quiséssemos “congelar” aquele formato para que ele não piore, ou seja, não se encurve com o tempo.

Como é o tratamento com óculos?

Quando o paciente apresenta uma visão satisfatória em ambos os olhos com os óculos, ele pode sim, usar somente óculos. Em geral, isso é possível em casos iniciais de ceratocone ou naqueles ceratocones em que o encurvamento da córnea se encontra abaixo do eixo de visão, ou seja, abaixo do centro da córnea, permitindo com que a visão central (nossa visão principal), se mantenha relativamente preservada.

Como é o tratamento com lentes de contato?

Ele pode ser feito com lentes de contato gelatinosas, podendo ser tóricas ou não tóricas, ou seja, com ou sem astigmatismo. Isso só é possível quando o formato da córnea do paciente ainda não está muito alterado, pois caso esteja, a lente não “se encaixa” direito na córnea do paciente e a visão não ficará nítida.

Nesses casos, pode-se tentar lentes de contato rígidas. As lentes rígidas podem ser do tipo corneanas, que são lentes menores, em torno de 8mm de diâmetro, que são adaptadas sobre a córnea do paciente. Existem lentes rígidas corneanas específicas para o ceratocone, que se encaixam muito bem nessas córneas de formatos diferentes ou irregulares. Essas lentes em geral dão uma visão próxima de 100 % para o paciente com ceratocone, desde que ele não apresente nenhum outro problema no olho além do ceratocone, e desde que não haja cicatrizes na córnea, possibilitando uma vida normal para esse paciente, que vai poder ler, dirigir, etc.

Nos últimos anos, foi lançado um novo modelo de lente rígida chamado escleral ou semi-escleral. Essas lentes tem um grande diâmetro, em torno de 12 a 14mm e se apoiam na esclera, ou seja, na parte correspondente ao “branco do olho”, trazendo muito mais conforto para aquele paciente que não se adaptou às lentes rigidas corneanas. São lentes que exigem um investimento mais elevado, porém, em geral, dão uma visão muito satisfatória e são lentes muito mais confortáveis. A pequena desvantagem das lentes esclerais é que elas são mais trabalhosas para se colocar no olho. Para retirar é tão simples quanto as lentes rígidas corneanas, recomendando-se usar sempre uma ventosa. Mas fazendo-se o treinamento adequado, a maior parte dos pacientes consegue aprender a fazer esse manuseio.

A grande vantagem então das lentes rígidas é que elas, em geral, dão ao paciente a melhor visão possível, extraindo daquele olho o maior potencial de visão que ele possa ter.

Como é o tratamento com anel intra-estromal?

A cirurgia de implante de anel intra-estromal, também conhecido como anel de Ferrara, foi idealizada pelo Dr. Paulo Ferrara, em Belo Horizonte, há algumas décadas, e tem como objetivo remodelar a córnea, deixando-a com um formato mais regular e mais plano, ou seja, mais próximo de uma córnea normal, melhorando assim a visão do paciente. Ela pode ser feita logo quando se diagnostica o ceratocone, após a cirurgia de cross-linking ou mesmo após o paciente tentar usar lente de contato e não obter sucesso. Ela é então indicada quando o paciente não está satisfeito com a visão obtida com o uso de óculos.

O implante de anel hoje é feito utilizando-se o laser de FEMTOsegundo para construir um tunel muito preciso dentro do estroma da córnea, onde em seguida é implantado o anel. Podem ser implantados um ou mais segmentos de anel, na mesma córnea, a depender de cada caso. Essa cirurgia deve ser planejada de forma personalizada, pois cada córnea com ceratocone tem um formato diferente. É uma cirurgia feita com anestesia tópica, ou seja, com colírio anestésico, não dói e é bem rápida, durando em média 10 minutos.

A cirurgia chamada de manual, ou seja, quando o tunel é feito manualmente e não com o laser, é uma cirurgia que tem caído em desuso, uma vez que o laser traz uma precisão maior e melhores resultados, o que já foi demonstrado em trabalhos científicos.

Após a cirurgia de anel, a córnea demora alguns meses para se remodelar e recomenda-se aguardar de 3 a 6 meses para uma nova prescrição de óculos.

Esse anel é implantado com o intuito de permanecer a vida toda na córnea do paciente e é praticamente imperceptível a olho nu. Em alguns casos, por exemplo, se o paciente coçar os olhos, mesmo após anos do implante, o anel pode sofrer extrusão, ou seja, ser “expulso” da córnea. Isso acontece raramente, e o principal sintoma apresentado nesses casos é dor ou sensação de corpo estranho no olho. Caso isso aconteça, o segmento de anel deve ser imediatamente retirado pelo médico oftalmologista.

Na grande maioria dos pacientes, o implante do anel intra-estromal não vai fazer com que ele pare de usar óculos, mas vai reduzir o grau do paciente e trazer mais qualidade de visão com os óculos.

O que posso fazer para evitar que a doença piore?

Em primeiro lugar, é importante entender que o ceratocone é uma doença da córnea muito séria, que não tem cura, mas que tem controle. O mais importante de tudo, é fazer uma visita pelo menos uma vez ao ano ao oftalmologista e, caso você já tenha sido diagnosticado com a doença, é de extrema importância seguir as orientações que o médico especialista irá te dar e fazer todo o tratamento proposto até o fim. Muitos pacientes só descobrem a doença tardiamente pois não procuraram ajuda profissional na hora certa, ou seja, anualmente ou quando começou a perceber que a visão estava embaçada. Quanto mais cedo a doença for diagnosticada, maior a chance de conseguirmos preservar uma visão normal ao paciente.

Além de fazer as consultas regularmente e seguir o tratamento proposto, é muito importante não coçar os olhos, pois já está muito bem documentado na literatura científica que, coçar ou esfregar o globo ocular, pode provocar o aparecimento do ceratocone em pessoas que tem uma predisposição genética, e também pode fazer o ceratocone piorar naqueles pacientes que já tem o diagnóstico da doença.

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